O sistema político dos apóstolos

Iluminados pela primeira leitura do dia de hoje em que o Senhor nos diz “Maldito o homem que confia no homem e faz consistir sua força na carne humana” (Jr 17, 5b), vamos refletir sobre o sistema político das primeiras comunidades católicas conforme narradas no Ato dos Apóstolos.

Em Atos dos Apóstolos há uma passagem no capítulo 2 que diz “44Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. 45Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um“. Há outras passagens que citam situações parecidas como no capítulo 4, 34-35.

Muitos católicos, e também outros cristãos, usam destas passagens para defender que as primeiras comunidades viviam uma espécie de “socialismo”. E ao ler sem atenção e sem entendimento do que é o socialismo, qualquer um pode cair no mesmo erro.

Primeiro é importante lembrar-mos que o socialismo não é um sistema de governo fim, ou seja, ele não subsiste por si só, ele é apenas um caminho para o comunismo. Dizer que é socialista mas não comunista é como dizer que gosta de passear de avião mas não de voar.

Também é importante lembrar-mos que a Igreja se manifestou, através dos 10 papas que antecederam o Papa Francisco, contra o comunismo, sendo que o Papa Pio XII chegou a decretar excomunhão latae sententiae para quem defendesse abertamente e conscientemente o comunismo, ou seja, está separado da Igreja de cristo de forma automática e tendo todos os sacramentos invalidados. (Obs.: Caso alguém se arrependa deste pecado não precisará mais buscar a Santa Sé, o Bispo local poderá atendê-lo em confissão e reuni-lo ao Corpo Místico de Cristo).

Bem, então se a Igreja é contra esse sistema político, como podem os Apóstolos terem vivido nestas condições?

Primeiro é importante percebermos os detalhes da escritura:

  • tinham tudo em comum” – Algo que se confunde sobre o socialismo e o comunismo é achar que tudo é comum, na realidade nestas realidades políticas apenas o “salário” é comum, ou seja, todos recebem o mesmo tanto de comida e outros recursos, porém o que você recebe é seu o que seu irmão recebe é dele, o resto é tudo de quem está no governo;
  • segundo a necessidade de cada um” – Certa vez ouvi uma história de alguns meninos que pediram à um Rabino “Estamos em três, mas ganhamos 7 balas, ajude-nos a dividi-las”, ao serem questionados se queriam a divisão pela lógica de Deus ou dos homens elas pediram que fosse feito segundo a lógica de Deus, o rabino então entregou 4 balas para um dos meninos, 2 para outro e ainda o último ficou sem nenhuma. Esta é uma reflexão que aparece muitas vezes nas sagradas escrituras, pois justiça não é dar o mesmo para todos e sim dar o que se é merecido e o que é necessário para cada um.
  • Vendiam as suas propriedades” – Talvez esta seja a parte mais forte pois mostra a livre adesão à comunidade. Ou seja, o sistema político da época os permitia ter bens e também os permitia vender e dividir entre os irmãos. Sendo assim, a vontade de viver em comunidade era uma vontade individual e não comunitária, despertada por Deus no coração de cada um.

Logo, se o socialismo e o comunismo não condizem com sistemas políticos justos, qual seria o sistema político sagrado?

Não sei, mas acredito que descobrirei tão logo eu morrer pois somente no céu viveremos a plenitude. Como nos lembra Jeremias na passagem citada no início do texto, todo católico deve ter apenas um Messias e seu nome deve ser Jesus, nunca um homem (ou um partido político).

E como ficamos aqui nesta terra?

Nunca teremos o sistema político perfeito e ideal aqui, porém, movidos de compaixão e caridade buscamos sempre ser mais justos em busca da santidade e do bem ao próximo.

Como isso pode se aplicar à política?

Gosto de pensar nas fraternidades como a dos franciscanos. Minha paróquia é uma paróquia franciscana e percebo a forma como funciona a “política” deles. Um jovem resolve entrar para a fraternidade, ele tem a livre escolha de aderir ou não. Além disso ele passa por um período de “degustação” que seria o aspirantado. Quando ele fizer seus votos ele abre mão de ter quaisquer bens e a partir dai sua vida é em fraternidade, por isso todos os bens pertencem à fraternidade e são geridos por irmãos escolhidos que destinarão os recursos conforme a necessidade de cada um.

Os elementos principais desta escolha são:

  • Liberdade (tanto de adesão quando de saída);
  • Fraternidade (é uma atitude individual);
  • Valores (todos compartilham os mesmo valores principais).

Não é possível a política de um país, por exemplo, ter os principais valores de todos os cidadãos, por isso também não é possível querer igualar a todos.

A política deve fornecer a liberdade à todos os povos e indivíduos e ao mesmo tempo manter a justiça. Ou seja, o ideal é que as pessoas tenham liberdade para viver a vida como desejarem e ao mesmo tempo serem limitadas quando se trata do direito dos outros.

Também o capitalismo exagerado como é a opinião de muitos libertários torna as pessoas reféns do dinheiro.

Sendo assim, não sugiro (nem a Igreja o faz) nenhum sistema político, apenas convido ao leitor para pensar sobre o que é justo e, assim como a Igreja faz, conservar os bons valores e julgar cada situação de acordo com o momento e com a moral.

 

Reflexão adicional

A caridade é uma característica fundamental do Cristão Católico, porém é importante lembrar-mos que a caridade é dar de si para o irmão e não querer tirar dos outros para o irmão. O conceito Robbin Hood não é um conceito católico. Roubar daquele que tem não é uma atitude cristã como nos lembra o próprio Cristo: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21c).

 

Paz e bem!

Um comentário em “O sistema político dos apóstolos

  1. Sobre a questão de “colocar tudo em comum” é importante ressaltar o seguinte:

    – os primeiros cristãos acreditavam que Jesus logo voltaria, então se se desfizessem de todos os seus bens materiais nada importaria porque a parusia (segunda e definitiva vinda de Cristo) estaria concretizada, e já ninguém mais precisaria de bens materiais.

    – outro ponto é que se uma pessoa vender tudo o que tem e der aos pobres, em pouquíssimo tempo todos serão pobres novamente (incluindo o doador – ou seja, não resolve o problema da pobreza).

    – o que parece ser mais evidente é a ideia de partilha, observa-se que o texto não diz “vendiam TUDO o que tinham”. Bastante provável que quem tivesse duas propriedades, vendia uma e ficava com a outra, partilhando o valor da venda. Até porque as pessoas têm família, responsabilidades, “se eu der tudo o que tenho”, quem irá sustentar meus filhos? A ideia de dar tudo aos pobres e ficar sem nada é uma concepção franciscana, mas mesmo os franciscanos, embora não possuam propriedades, dispõem de uma estrutura física onde morar (mosteiro ou residência de religiosos, por exemplo). Dificilmente nos dias atuais alguém larga tudo e vai viver como mendigo ou como um eremita dentro de uma caverna.

    É preciso ter responsabilidade. Ter poupança para suprir eventual necessidade não é pecado. Pecado é ser ganancioso, avarento, só pensar em dinheiro.

    O próprio Jesus, no Evangelho de Lucas, precisou ser assistido financeiramente, e neste caso foi por mulheres piedosas. Para se realizar a missão também são necessários bens materiais. Como dar de comer a alguém se a pessoa não é capaz de sustentar a si mesma?

    Volto a dizer, a ideia gira em torno da partilha, se todos nós (inclusive eu), dividíssemos os alimentos que que são produzidos no planeta, se partilhássemos um pouquinho daquilo que temos, não haveria mais fome no mundo, ninguém mais passaria necessidades. Esse seria seguramente um grande milagre!

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